Dando continuidade à postagem anterior são necessários, ainda, mais alguns esclarecimentos para tornar claro este vasto assunto ainda tão pouco conhecido e tão distorcido pela maioria.
- Foi dentro do contexto dessa civilização harappiana que viveu Rudra (Shiva) considerado o patrono do tantrismo e o criador do Yôga.
- Como comprova a arqueologia ele é um personagem pré-ariano e sua presença afirma e prova a existência do Yôga nesses tempos remotos, numa sociedade tântrica (matriarcal) e sámkhya (naturalista).
- Rudra (Shiva) foi um famoso bailarino que, em certa ocasião, improvisou intuitivamente alguns movimentos belíssimos e muito sofisticados.
- Essa técnica de extrema beleza emocionava a todos que presenciavam sua expressividade. Assim, começaram a pedir-lhe que ensinasse sua arte.
- No princípio o método não tinha nome. Era algo espontâneo que emanava e surgia de dentro e só ressoava no íntimo dos que haviam nascido presenteados com uma sensibilidade mais refinada.
- Quando o Mentor passou para outros níveis, sua arte não morreu pois, alguns alunos, mantiveram-na intocável e transmitiram os ensinamentos práticos sem modificá-los em absolutamente nada.
- Em algum momento da história essa arte ganhou o nome de Integridade, Integração, União. Em sânscrito Yôga:

- Seu criador entrou para a mitologia com o nome de Shiva e com o título de Natarája, Rei dos Bailarinos.
- Se o Yôga, o Tantra e o Sámkhya existiram e foram desenvolvidos por esse povo de uma admirável civilização, é aí e nessa época, que podemos e devemos identificar um ensinamento autêntico e diferenciá-lo de outros comprometidos pelo consumismo ou pela interferência de outras modalidades totalmente incompatíveis.
- Nas esculturas e selos encontrados em Mohenjo-Daro são retratados alguns personagens que chamam a atenção e que mostram os mais importantes registros que têm relação com a existência do Yôga nesse antigo período.
- Inúmeras imagens provenientes da civilização harappiana dizem respeito a exercícios de Yôga.
- Uma dessas gravuras representa Pashupati, Senhor das feras. Esse desenho faz referência à Rudra, personagem harappiano que, mais adiante no hinduísmo recebe o nome de Shiva, princípio criativo masculino, um dos símbolos mais antigos e poderosos do Tantra. Seus chifres são símbolo das forças lunares e o touro seu veículo e parâmetro da energia sexual criativa. Suas três faces mostram que ele dá origem, mantém e dissolve o Universo, não existindo nenhuma dúvida que temos aí o protótipo de Shiva, exercendo a função de senhor dos animais selvagens e príncipe dos yôgis.
- Essa revelação é uma grande contribuição para a história do Yôga. Os desenhos, estatuetas e inscrições da região do vale do rio Indo são documentações arqueológicas preciosas e precisas que, por si só, demostram a existência do Yôga na civilização harappiana.
- Importante, necessário e fundamental é dizer, também aqui, que a valorização do aspecto feminino (Shaktí). a reverência à natureza e o caráter masculino de Shiva (o criador do Yôga) são alguns elementos da cultura ancestral que foram deixados como legado ao hinduísmo moderno, demonstrando que o Yôga coexistiu na antiguidade dentro de um contexto tântrico, ou seja, numa civilização matriarcal, sensorial e desrepressora.

Seja pelo fato das invasões, seja por causas naturais ou seja por tudo isso em conjunto o fim dessa civilização não determinou o fim do Yôga, muito pelo contrário. Apesar de influenciado pelos mais diversos grupos raciais, filosóficos, políticos ou religiosos que existiram ou continuam a existir na Índia, o Yôga foi preservado mesmo após o final da era harappiana.
- O Tantra original e antigo, como sistema de comportamento identificador da sociedade dravídica é caracterizado pela tradição boca a ouvido, tradição secreta e transmissão oral através dos milênios e é matriarcal, sensorial e desrepressor. Uma característica marcante do Tantrismo é a diversidade enorme de rituais. Porém, quando estão associados às práticas yôgis, seguem um outro direcionamento. O que o Yôga realiza é "interiorizar" os ritos conferindo-lhes um valor novo a cada forma petrificada, readaptando-as às necessidades sempre novas do ser humano.
- Além disso, é graças principalmente às técnicas do Yôga que o tantrismo pôde se organizar como sistema coerente, com rituais próprios que o identificam. São originários daí, entre muitas outras coisas:
Mudrá - gestos reflexológicos feitos com as mãos que abrem comportas do inconsciente coletivo.
Pújá - transmissão, circulação e retribuição ética da energia e que tem o sentido naturalista de sintonização com os arquétipos.
Mantra - vocalização de sons e ultra-sons com várias finalidades.
- Não devemos nos esquecer que, no início, antes das deturpações que sofreu ao longo dos séculos (salvo em raros locais que mantiveram a sua pureza original) o Tantrismo era, podemos agora assim especificar, por comparação: branco (não no sentido racial) e de direita (não no sentido político). Mas isso era naturalmente intrínseco. Depois da invasão dos áryas foi deturpado.
- Após a fase tântrica dos séculos IV d.C. a VIII d.C. é necessário ainda observar outro acontecimento no século XI d.C. com a fundação da célebre escola Kaula de tantrismo negro (não no sentido racial) por MatesyêndraNatha, surgiu logo em seguida o Hatha Yôga implantado por GôrakshaNatha, discípulo de MatesyêndraNatha. Dessa forma, dentro da história do Yôga, o Hatha é muito recente (século XI d.C). Então, não faz parte do Yôga original, nem foi sequer uma de suas ramificações. Logo não é, como alguns afirmam, um Yôga antigo e primordial.
- Na Idade Média o Yôga recebeu outra grave deformação quando Shankarácharya, Mestre de filosofia Vêdánta, converteu a maioria da população. Este fato se refletiu pesadamente no Yôga pois, já que a maior parte dos indianos tornara-se Vêdánta, ao praticar o Yôga a opinião pública e seus líderes passaram a impôr um formato espiritualista ao Yôga que, desde as suas origens, se fundamentava na filosofia Sámkhya que era naturalista, sem qualquer tipo de mistiscismo.
- No século XX d.C. o Yôga recebeu mais um pesado golpe pois foi descoberto pelo Ocidente que o transformou em algo utilitário e consumista. Um Yôga inautêntico, com constantes simplificações, deturpações e adaptações sem critérios, sem escrúpulos que nem vale chamar-se de Yôga a essa anomalia.
- A questão é que muita gente sem conhecimento e vivência fala ou passa a ensinar misturando tudo: ginástica, terapias, esoterismo, zen, espiritualismo, outras linhagens, inventando várias modalidades e modismos para serem consumidas e satisfazer leigos que não tem a menor idéia do que seja o Yôga a não ser uma visão esteriotipada e falsa, uma miscelânia que de Yôga mesmo não tem nada. Não devemos esquecer que a palavra mântrica Yôga significa INTEGRIDADE. Um Yôga legítimo é fascinante de se praticar e é magnífico como filosofia de vida: dinâmico, forte e vibrante cuja finalidade é levar ao auto- conhecimento e ao auge da evolução humana.
- Na sequência dos acontecimentos mais importantes entre o final do século XIX d.C. e início do século XX d.C. pode-se mencionar uma nova e certa influência do Tantra no Yôga desse período com o surgimento de Mestres tântricos como Rámakrishna e Aurobindo, sendo que este último inclui várias técnicas tântricas e posiciona o Tantra como sendo "um sistema Yôgi notável que é, em sua natureza, SINTÉTICO...um grande e poderoso sistema". Mas, mesmo nesses Mestres, o Tantra ainda está vinculado de alguma forma à tradição Vêdánta.
- Em meados do século XX d.C. o Yôga foi sistematizado e codificado sendo resgatado da fonte de suas verdadeiras raízes ressurgindo em sua linhagem, em sua estirpe verdadeira, de comportamento tântrico e fundamentado no Sámkhya naturalista. Um Yôga verdadeiramente libertário ao ampliar a lucidez dos que o praticam e vivenciam realmente. O Yôga Antigo, original, numa oitava acima da espiral para expressão nesta época na qual vivemos e apontando na direção do futuro. Auto-suficiência com integração. O Yôga Ultra-Integral.
3 comentários:
Sou católico. Mesmo assim posso praticar ioga ?
Você pode praticar Yôga tranquilamente.
É como se você perguntasse: "Sou católico, posso dançar ? Posso nadar? Posso ir ao dentista? etc...
Yôga não é uma religião, nem tem a finalidade de doutrinar ninguém, portanto a prática de Yôga é bem vinda a todas as religiões e raças sem discriminação.
O Bom instrutor não doutrinará ninguém e nem permitirá que isso aconteça durante as práticas.
O Yôga é estritamente técnico e prático, algo que te leva à LUCIDEZ e ao AUTOCONHECIMENTO sem depender de teoria alguma.
Logo, você é livre para continuar indo à sua igreja e praticar o Yôga.
E... Renato, quanto à palavra, lembre-se: escreve-se Yôga. Leia a postagem sobre "Regras Básicas do Sânscrito".
Obrigado pela sua pergunta muito oportuna e fique atento, pois mais tarde, postarei esse assunto com maiores detalhes.
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